É a brincar que a criança descobre o mundo, constrói relações e desenvolve competências essenciais para a vida.
Brincar é uma atividade essencial no desenvolvimento infantil, sendo reconhecida como uma ocupação central da infância. É através do brincar que a criança aprende a explorar o mundo, a relacionar-se com os outros, a expressar emoções, a desenvolver capacidades motoras, cognitivas e sociais, bem como a criar estratégias de resolução de problemas.
Nos primeiros meses de vida, o brincar assume um carácter predominantemente sensório-motor. Até aos seis meses, as brincadeiras centram-se na exploração do corpo e do ambiente imediato, como agarrar objetos, levar brinquedos à boca ou reagir a estímulos visuais e sonoros. Entre os 6 e os 12 meses, surgem as brincadeiras de causa-efeito (por exemplo, pressionar um botão para ouvir um som), o empilhar de blocos e a imitação de sons.
Dos 12 aos 24 meses, o brincar torna-se mais funcional, com ações repetidas que imitam tarefas do dia-a-dia, como empurrar um carrinho ou dar de “comer” a uma boneca. É uma fase marcada pelo desenvolvimento da marcha, da motricidade fina e da autonomia.
Entre os 2 e os 4 anos, predomina o brincar simbólico e o jogo de faz-de-conta. A criança finge ser outras pessoas (médico, mãe, super-herói), simula histórias e cria mundos imaginários. Este tipo de brincadeira é fundamental para o desenvolvimento da criatividade, da empatia e da autorregulação emocional. Nesta fase, surgem também jogos com regras simples e brincadeiras motoras, como correr, saltar ou esconder-se. A intervenção do terapeuta ocupacional pode envolver a facilitação de interações sociais e a estruturação do ambiente, com o objetivo de promover o desenvolvimento de competências sociais e emocionais, motoras e de práxis, sensório-percetivas e cognitivas.
Entre os 5 e os 7 anos, o brincar caracteriza-se por jogos com regras mais complexas, jogos de tabuleiro, brincadeiras em grupo, atividades desportivas e desafios motores. A criança começa a lidar melhor com a frustração, a esperar pela sua vez, a cooperar e a respeitar regras.
Quando surgem dificuldades no brincar — seja por atraso no desenvolvimento, perturbações sensoriais, défice de atenção, limitações motoras ou outras necessidades específicas — a Terapia Ocupacional assume um papel essencial. O terapeuta ocupacional avalia a forma como a criança brinca, identifica os obstáculos existentes (físicos, sensoriais, emocionais ou sociais) e propõe estratégias ou adaptações que promovam a participação nesta atividade.
Estudos demonstram que a intervenção precoce da Terapia Ocupacional com envolvimento ativo dos progenitores/cuidadores e promoção do brincar, se necessário com adaptações, melhora significativamente o desenvolvimento global da criança e fortalece o vínculo familiar (Figueiredo et al., 2016). Em contexto escolar, a intervenção lúdica durante o recreio favorece a inclusão, a interação com os pares e a construção de vínculos sociais.
Ao reconhecer e valorizar o brincar como ocupação significativa, a Terapia Ocupacional contribui para promover a participação, a inclusão e a autonomia, assegurando que todas as crianças, independentemente das suas limitações, tenham acesso ao seu direito fundamental de brincar.
Do ponto de vista da Terapia Ocupacional, brincar não é apenas uma ferramenta de intervenção, mas uma ocupação com valor intrínseco, que deve ser considerada um objetivo terapêutico por si só — especialmente em crianças com necessidades específicas.
Brincar é muito mais do que uma atividade espontânea ou uma forma de entretenimento. É, na verdade, uma das principais formas de aprendizagem na infância.

